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Haximu

Por José Arbex Jr.

Tente responder rapidamente: o que significa Haximu? Se você não souber, sinta-se envergonhado, mas não se sinta só. Poucos brasileiros preservam a memória de um dos episódios mais vergonhosos de nossa história contemporânea: o massacre de homens, mulheres e crianças Yanomami, por garimpeiros que buscavam ouro em plena floresta amazônica. Aconteceu em julho de 1993. Haximu é o nome de sua aldeia; mas é também um emblema histórico: em 2006, o Supremo Tribunal Federal caracterizou a chacina como um ato de genocídio, o primeiro oficialmente reconhecido pelo Estado brasileiro. O primeiro, note bem, neste país erguido sobre a destruição de nações e culturas originárias. Haximu é, portanto, uma chave para a reconstrução de nosso passado.

Coube à jornalista inglesa Jan Rocha, correspondente do Guardian no Brasil, a missão de rememorar Haximu. E isso não num tempo qualquer, mas justo quando o papa Bento XVI proclama que o catolicismo não foi imposto aos povos originários da América, e sim graciosamente abraçado, por traduzir a única religião verdadeira. E também quando o destino da vida no planeta depende, em grande parte, do que acontecerá na Amazônia, nos próximos anos.

Jan Rocha nos leva a Haximu com a maestria de quem conhece profundamente a região, por meio de um texto aperfeiçoado por anos e anos de dedicação à arte de informar. Como resultado, uma parte do mundo amazônico se abre à visitação do leitor. A narrativa é polifônica: falam líderes e xamãs Yanomamis, garimpeiros e congressistas, religiosos e intelectuais. Não há maniqueísmo, mas há comprometimento: Jan Rocha oferece um relato que, em definitivo, permaneceria oculto, se dependesse unicamente da vontade das elites.

Afinal, dizia Hannah Arendt, as elites são sempre inimigas da memória. Fica meio chato constatar que, no Brasil, a prática de massacres dos mais pobres e indefesos não pertence ao passado. Muito ao contrário. Só para lembrar: menos de três anos depois de Haximu, em abril de 1996, Eldorado dos Carajás seria palco de outro morticínio, dessa vez organizado pela PM do Pará contra integrantes do MST. Ninguém foi até agora punido. Não por acaso, essa história também é contada por Jan Rocha, no livro Rompendo a cerca, em co-autoria com Sue Branford. Isso, para não falar que mesmo Haximu aconteceu pouco depois dos 111 mortos do Carandiru (outubro de 1992).

Para você, que está agora tentado a encarar a leitura deste livro, fico tentado a fazer a advertência encontrada por Dante à porta do inferno: “Lasciate ogni esperanza, ó voi que entrate”. Mas não é bem assim. Jan Rocha também mostra que há reservas imensas de humanidade em meio ao caos, e que, de certa forma, Haximu serviu para colocar um enorme amplificador na boca de grandes xamãs.

 

Este lançamento acontece no dia XX

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Agosto 21, 2007


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